DOSSIÊ

Nos corredores da UnB, histórias de descobertas e superação mostram o papel da universidade na promoção da cidadania, nos avanços sociais e na projeção de novas perspectivas de vida

 

 

 

 

 

Texto Serena Veloso

 

O vilarejo de Calumbi dos Flores, no município de Barra do Corda (MA), mal chega a ter 150 habitantes. Na região rural, há apenas uma escola de ensino fundamental. Depois de completar o nível escolar, o destino da maioria dos alunos é o trabalho nas lavouras. Essa poderia ter sido a história de Mateus de Morais. No entanto, a paixão pela literatura, cultivada desde criança, e o incentivo dos pais levaram o jovem de 19 anos a tomar outro rumo: a universidade. Mateus é o primeiro do povoado maranhense e de sua família a chegar ao ensino superior.

 

Para alguns, como Mateus, a passagem pela Universidade representa a chance de ser o primeiro membro da família a ter um diploma. Para outros, ela abre caminho para descobrir a própria identidade. Ninguém passa pelos bancos universitários sem sair transformado.

 

DESAFIOS DIÁRIOS

“As pessoas mais velhas falavam que não era coisa de gente de lá conseguir se formar, mas me tornei o futuro do povoado”, lembra o estudante de Letras-Português da Universidade de Brasília, Mateus de Morais. Na capital federal, Mateus foi morar com a tia para cursar o ensino médio. Porém, no Centro de Ensino Fundamental 619 de Samambaia Norte, percebeu que o assunto universidade mal era comentado entre colegas e professores. Ainda assim, foi firme em seu propósito de passar no vestibular.

 

Em 2017, conquistou a aprovação na UnB. O sonho logo esbarrou em desafios. Para se deslocar até as aulas no campus Darcy Ribeiro e retornar para casa diariamente, ele pega quatro ônibus. São mais de duas horas em cada trajeto e um total de R$ 20 gastos. Somam-se a isso dispêndios com alimentação, fotocópias, livros e outras necessidades de manutenção no cotidiano acadêmico, incompatíveis com o padrão de vida do jovem.

 

A fim de contornar esses desafios, Mateus conseguiu integrar o programa de assistência a jovens de baixa renda e obteve auxílios socioeconômicos. Ainda que as questões financeiras tragam obstáculos, Mateus reconhece que as oportunidades proporcionadas pelo ambiente acadêmico são recompensadoras. “É uma realidade totalmente diferente da que imaginava. Você consegue conviver com diferentes pessoas e entende melhor sobre você mesmo e o mundo. A UnB é única nesse sentido”, afirma.

 

O aluno de Letras deseja tornar-se professor de língua portuguesa e escritor. Ele vê a docência como possibilidade de incentivar outros jovens a ingressar no ensino superior e transformar suas realidades. Os passos iniciais como romancista foram dados com o lançamento de seu primeiro livro, O Tênue Brilho da Inocência, no início deste ano. Para o futuro, Mateus mira o mestrado e o doutorado, e deseja que as duas irmãs, ainda em fase escolar, tenham a mesma oportunidade.

 

ESPAÇO MAIS DEMOCRÁTICO

Em 2004, a UnB registrava apenas 8,42% de estudantes negros ingressos na graduação. Ainda naquele ano, a implantação da política de cotas raciais nos processos seletivos para a graduação proporcionou uma mudança dessa estatística e favoreceu a ampliação do acesso em termos de diversidade racial e socioeconômica.

 

A instituição foi pioneira na adoção do instrumento que destina um percentual do total de vagas para candidatos negros. A partir de 2012, a Lei de Cotas para o Ensino Superior também foi agregada como estratégia para corrigir distorções no acesso à universidade, com reserva de 50% das vagas para candidatos oriundos de escolas públicas, de acordo com critérios de renda e racial.

 

O conjunto de medidas contribuiu para alavancar o quantitativo de graduandos negros e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Atualmente, dos mais de 43 mil discentes matriculados na UnB, 38,96% autodeclaram-se pretos ou pardos. Já entre os ingressantes nos cursos de graduação, 17,14% vivem com baixa renda.

 

RAÍZES E CACHOS

“Desde criança não gostava de usar o cabelo solto porque as pessoas falavam mal”, recorda-se Vilma. O preconceito a levava a negar as madeixas e o tom de pele. Aos 15 anos, alisava os cachos. Definia-se como “moreninha”. O início da mudança da percepção de si veio em 2013, com o ingresso na licenciatura em História da UnB. Ao pisar pela primeira vez no campus, ficou encantada com a diversidade de pessoas e pensamentos que ali circulavam. 

 

A cada semestre, os aprendizados, dentro e fora das salas de aula – entre disciplinas sobre a questão negra e amizades –, abriam-na a outras perspectivas de mundo e, com isso, operavam transformações em sua maneira de ser. Reconhecia colegas com histórias de vida e aparência similares à sua. Impressionava-se com a coragem das pessoas negras em assumir os cabelos naturais.

 

“Eu pensava: será que os outros não falam aquelas coisas para elas? Até descobrir que elas escutavam o mesmo que eu. A diferença é que simplesmente diziam: sou assim, eu me aceito e os outros vão ter que me aceitar.” As experiências acadêmicas despertaram em Vilma o desejo de reconhecer sua negritude. Abandonou os anos de química nos cabelos para assumir, em definitivo, os cachos: “Agora me aceito completamente”.

 

Na Universidade, a jovem também presenciou e passou por situações de racismo. “Por muito tempo, conseguia enxergar o que acontecia com o outro, mas era muito difícil perceber o racismo comigo”, lamenta. Ainda que as questões atingissem a autoestima da estudante, também viu motivos para se fortalecer e enfrentar essas violências.

 

Hoje egressa da UnB, Vilma deseja que as novas gerações não passem pelo mesmo que viveu e reconhece que é preciso combater a reprodução do preconceito. Acredita na educação como caminho de mudança, com a promoção do respeito e da valorização da diversidade social e racial. “Enquanto mulher negra e professora de História, ciente da condição de raça e de gênero em que vivemos, seria hipocrisia não levar isso para a sala de aula”, frisa.

 

DIREITO DE SER

Desde criança, Jess de Araújo Sá sentia que o seu corpo feminino não condizia com a forma como se via. Os conflitos de identidade acentuaram-se na puberdade. Os seios cresceram, a menstruação desceu e o olhar das outras pessoas sobre seu corpo mudou. As associações e taxações quanto à feminilidade incomodavam. Escutava frequentemente da família frases como: “Seja mocinha, seja delicada”. No entanto, não se conformava: “Eu me sentia errado indo contra isso, como se fosse minha a culpa por ser diferente”.

 

Quando ingressou na Universidade em 2014, no curso de Biblioteconomia, descobriu ali um universo diferente, onde as pessoas pareciam ter mais liberdade para ser quem realmente são. Jess conheceu estudantes com trajetórias de vida com as quais se identificava. Buscou conhecer mais a fundo questões sobre transexualidade. Foi quando se reconheceu como pessoa trans não binária, cuja identidade de gênero não se limita às definições de masculino e feminino.

 

Ainda assim, tinha medo de se assumir publicamente. “As pessoas mais próximas já sabiam. Não cheguei a me impor e falar: ‘Sou isso e quero ser tratado assim’”, confessa. Com o tempo e o apoio dos colegas trans, notou que essa barreira precisava ser rompida. Apesar de se considerar não binário, Jess prefere ser chamado pelo pronome masculino e passou a requisitar tal tratamento. 

 

Já se vestia com roupas consideradas típicas de garotos, mas outras transformações viriam. Os cabelos, antes longos, ficaram curtos e coloridos; os seios, escondidos debaixo das vestimentas, ainda aguardam cirurgia para a retirada. Por fim, decidiu mudar o nome. Jéssica, o nome de batismo, virou Jess, identificação registrada nos documentos acadêmicos e pessoais.

 

Apesar da aceitação de si, ainda enfrenta dificuldades dentro e fora do ambiente acadêmico. Entrar no banheiro sem ser notado é uma delas. Por vezes, Jess é confundido com menina. “O maior desafio é que, querendo ou não, as pessoas ainda me olham e me julgam no feminino. Isso em qualquer lugar, seja em casa, seja no trabalho ou na Universidade. No ambiente acadêmico, as pessoas estão mais abertas. Em outros lugares, isso não acontece tanto”, lamenta.

 

CIÊNCIA QUE IMPACTA

No Laboratório de Engenharia Biomédica da Faculdade de Tecnologia (FT), o doutorando Ronei Delfino da Fonseca, 38 anos, manuseia um equipamento robusto. Trata-se de um protótipo, concebido em parceria com o Ministério da Saúde, para combater o câncer de fígado. Desenvolvida por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da UnB, a tecnologia é capaz de aquecer as células cancerígenas até destruí-las.

 

O sorriso estampado no rosto de Ronei ultrapassa a satisfação pela próxima etapa do projeto, que já teve a eficácia comprovada em animais e iniciará os experimentos em humanos. A fase é a última antes de receber a certificação de segurança para incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Ronei cursa doutorado em Sistemas Mecatrônicos e trabalha no desenvolvimento de dispositivos eletrônicos para o projeto Sofia. Desde 2004, é também técnico em eletrônica da Universidade, cargo hoje exercido na Diretoria de Manutenção de Equipamentos (Dimeq).

 

Quando iniciou a carreira como servidor, trabalhava nos laboratórios da Faculdade de Tecnologia (FT) e adorava ajudar os alunos. “Auxiliava na montagem de experimentos e tirava dúvidas dos alunos. Esse ambiente sempre me causou deslumbramento. Eu me sentia em casa”, conta. Esse foi o estímulo para decidir estreitar o vínculo com a instituição como estudante.

 

Em 2004, a UnB passava pela ampliação de infraestrutura, cursos e vagas ofertadas com a adesão ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Instituída pelo governo federal, a iniciativa mirou o crescimento na oferta da educação superior. Um dos resultados foi a criação de novos campi, entre eles a Faculdade do Gama (FGA), em 2008. O campus concentra cinco graduações na área de Engenharia. Ronei foi aluno da primeira turma de Engenharia Eletrônica.

 

Para entrar no curso, prestou vestibular duas vezes, sem sucesso. Passou para Física logo em seguida, mas a vontade de se especializar em eletrônica falou mais alto. Ronei compreendeu que a admissão na graduação desejada passava por questões muito além da dedicação. Deparou-se com a desigualdade de oportunidades de acesso para negros e para aqueles que vêm de formação escolar pública.

 

“As pessoas me falavam que a universidade não era para todo mundo. Nunca acreditei. Sempre me esforcei, mas não conseguia entrar. Não era só uma questão de mérito. Há barreiras, não só pela questão econômica, como também psicológica, de achar que está num contexto que não é o seu”, reflete, falando sobre as angústias à época.

 

Por meio do sistema de cotas raciais, Ronei garantiu a aprovação em Engenharia Eletrônica. Conciliar a vida acadêmica ao trabalho não foi tarefa fácil. Ronei tinha uma jornada semanal de trabalho de 40 horas. O curso demandava grande dedicação. Para compensar as horas ausentes do serviço, passava os fins de semana na Universidade até às 22h.

 

Hoje doutorando, considera-se privilegiado por ocupar um espaço cuja inserção é ainda desafiadora para pessoas de realidade social e racial como a dele. “A UnB me transformou, me abriu a mente para um contexto maior, que é conhecer a função da universidade, a formação e a discussão de questões locais e amplas”, reconhece.

 

SUPERAR LIMITES

Quase a totalidade das contribuições científicas do Brasil (mais de 90%) vem de instituições públicas de ensino como a UnB. Por trás desse dado relevante, há o impacto significativo que as pesquisas geram no cotidiano de milhões de brasileiros. O educador físico Estevão Lopes, 41 anos, é prova de como a ciência produzida nas universidades pode transformar vidas. Em 2012, ele foi vítima de bala perdida no Riacho Fundo, região administrativa de Brasília. O disparo atingiu sua coluna, tornando-o paraplégico.

 

A perda da mobilidade o fez desacreditar na vida. “Todo mundo que passa por um trauma grave tem um período de luto e isso não tem receita de bolo para passar”, confidencia Estevão, que, antes do acidente, advogava. A partir de então, teve que se reinventar. Encontrou motivação no remo olímpico e no halterofilismo para seguir em frente e tornou-se paratleta. Em 2015, foi convidado a conhecer uma iniciativa de pesquisadores da UnB que o transformaria ainda mais.

 

A promessa do projeto EMA, sigla para Empoderamento, Mobilidade e Autonomia, era desenvolver um triciclo adaptado capaz de estimular, com impulsos elétricos de baixa energia, a mobilidade de pessoas com deficiências motoras. Idealizada pelo professor de Engenharia Elétrica Antônio Lanari Bo, a pesquisa tinha a perspectiva de oferecer a esse público a possibilidade de pedalar com as próprias pernas.

 

O projeto procurava voluntários para experimentos. Estevão recebeu a novidade com desconfiança. “Achava bem distante da nossa realidade atual e não estava muito a fim de investir no projeto”, lembra o paratleta. No entanto, a curiosidade falou mais alto e ele decidiu participar de alguns testes.

 

Estevão tornou-se o primeiro piloto do triciclo, apelidado de Ematrike. A sensação, ao pedalar pela primeira vez após o acidente, foi de pura liberdade. Com o tempo, o uso da tecnologia trouxe surpresas: além de ganho muscular de 18 centímetros nos membros inferiores, a eletroestimulação proporcionou melhorias na qualidade óssea e no aspecto de sua pele.

 

“Hoje a minha vida é dez vezes melhor do que era antes, mesmo na cadeira de rodas, que é só uma forma de andar diferente. O que vai me determinar como ser humano são minhas atitudes”, afirma o paratleta, que também se tornou coordenador da iniciativa.

 

Há três anos, Estevão abriu sua própria escola de remo olímpico e canoagem em Brasília, a Capital do Remo. A iniciativa tem mais de 20 paratletas, entre lesados medulares, amputados e pessoas com doenças degenerativas, e funciona como uma extensão do projeto Ema. O clube oferece treinos com o triciclo e uma plataforma para remo indoor assistido, com o uso de eletroestimuladores. São tecnologias que contribuem para evolução do rendimento dos paratletas.